Desafio no futebol chinês. Como construir uma ideia de jogo?

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Boa tarde Caros Seguidores de CMVISION.PT.

Hoje decidi colocar em artigo a resposta a uma pergunta que me foi colocada após a minha palestra no Congresso de Futebol Online da Bwizer, realizada Março passado sobre a minha experiência no futebol chinês. Achei que o seu conteúdo faria todo o sentido ser colocado em artigo. Aqui vai….

 

Boa tarde caro Carlos Miguel.

 

Sou colaborador na página de desporto ‘Planeta Desportivo’ e actualmente analiso, na sua totalidade, a Super Liga Chinesa. Visto que a sua experiência agora incide na República Popular da China gostaria de lhe perguntar como é, realmente, a aplicação de todas as vertentes tácticas a nível da construção de jogo nos atletas chineses. Como classifica o jogador chinês a nível técnico-táctico?

 

Obrigado. Desejo-lhe as maiores felicidades a nível pessoal e profissional.

 

Caro Ricardo,

 

Agradeço desde já a sua questão e as suas palavras e peço desculpa pelo atraso na resposta. Tenho estado sobrecarregado com bastante trabalho e não queria responder-lhe sem dar a devida atenção e rigor à elaboração de uma resposta o mais completa e contextualizada possível.

 

Apesar de acompanhar todo o futebol chinês e já ter estado em duas cidades (Pequim e Guanghzou), devo sublinhar que a profundidade da minha análise levará em conta o facto de estar numa realidade de futebol de formação, concretamente numa Academia de Futebol e que ainda não completei um ano na China.

 

Contudo, já deu para tirar algumas conclusões essenciais sobre as características de todo o sistema futebolístico do País.

 

Antes de responder concretamente às suas questões, contextualizar aquilo que tem sido o cruzamento das expectativas que tinha sobre o futebol chinês com aquilo com que me fui confrontando na prática.

 

Devo dizer-lhe essas ideias iniciais em parte algumas foram correspondidas, outras nem tanto. Antes de vir, a ideia que tinha sobre os jogadores chineses foi baseada em testemunhos de treinadores em Portugal; na minha experiência como jogador visto cheguei ter como colegas jogadores chineses (no Boavista); e de alguns jogos que acompanhei da Super Liga Chinesa. Isto, portanto, num contexto de futebol profissionalizado e tendo em conta uma minoria de jogadores, alguns deles que vingaram (ou seja foram jogadores que se destacaram). A ideia com que fiquei foi como sendo jogadores tecnicamente evoluídos, ágeis (até pelas suas características morforlógicas), humildes, concentrados com capacidade de trabalho e fácil integração (geralmente eram sociáveis, e todos os outros jogadores gostavam deles).

 

No que se refere ao futebol de formação, a minha ideia era vaga, embora antevisse a China como uma potência de formação de futuros jogadores. Que factores, para além da ideia que referi anteriormente, me levaram a ter esta perspectiva?

  • Demografia (sinónimo de quantidade);
  • Forte Investimento político no futebol;
  • Pensei haver uma certa cultura, chamemos-lhe de “subserviência”, que (sublinho) principalmente em determinado momento do processo de desenvolvimento de um futebolista é necessária ter, como forma de estabelecer um compromisso com a prática e com a transcendência;
  • Pensei que certas características morfológicas, que entendo serem propensas ao desenvolvimento de um determinado estilo de jogo de qualidade (que pressupõe grande qualidade técnica, agilidade com e sem bola, explosividade), poderiam ser modeladas a partir do domínio corporal e de movimento que os miúdos desenvolveriam através das respectivas actividades típicas chinesas que envolvem o corpo (por exemplo artes marciais).
  • Abertura ao conhecimento especializado (nomeadamente de treinadores estrangeiros)

 

 

Quando me deparei com a prática, repito, num contexto de uma Academia de Futebol (com miúdos entre 7 e 13 anos), no que se refere à compreensão do jogo e às capacidades específicas para jogar o nível (fraco) que encontrei não foi surpresa nenhuma. Afinal a cultura futebolística é ainda pouca, o conhecimento do futebol é escasso, pelo que é natural que miúdos destas idades não tenham tido experiências de jogar sem ser no contexto das academias.

No que se refere às capacidades gerais que envolvem o domínio do corpo sinceramente esperava um pouco mais, mas rapidamente percebi que as grandes cidades chinesas, apesar da relutância da China em se abrir a determinadas tendências da cultura ocidental, têm características sócio-demográficas comuns às do Ocidente, como por exemplo o sobreagendamento dos miúdos em actividades onde os pais necessariamente os relegam (fruto do trabalho, etc) e a partir das quais, pouco tempo sobra para se desenvolverem autonomamente, brincar sem supervisão de adultos e desenvolverem aspectos essenciais de domínio corporal e de movimento. Ou seja, no que se refere às capacidades gerais que envolvem o domínio do corpo esperava um pouco mais, mas de qualquer forma deparei-me que dependia um pouco de miúdo para miúdo mas, no geral, não era por aí que não seria possível modelá-los e desenvolvê-los porque as aquisições básicas de domínio do corpo são relativamente mais rápidas de desenvolver do que aquelas que envolvem a bola e as inter-relações que se estalecem depois no contexto de uma equipa.

 

No que se refere aos restantes aspectos chamemos-lhe mais humanos, a realidade que encontrei foi um pouco diferente da ideia que tinha inicialmente. Confrontei-me com algum egoísmo, algum desrespeito por valores essenciais a uma equipa, pouca atenção. Foi de certa forma, não digo um choque, mas um grande contraste com aquilo que esperava e que estava habituado.

Ao longo do tempo, fui percebendo melhor determinados contextos mais Macro daquilo que é a cultura chinesa, o seu sistema sócio-político e educativo e de que forma isso poderia influenciar todo as suas dimensões.

Por exemplo, a chamada one child policy, foi um contexto sócio-político que, durante anos, impossibilitou que várias gerações (apanhou aquelas com que lido) tivessem tido a oportunidade de ter um irmão com quem brincar, um ídolo para imitar, seguir e competir. Isto tem repercussões muito grandes, na minha opinião, na formação da personalidade do miúdo chinês, pois durante crianças são os únicos alvos de atenção dos pais, dos avós, etc… Daí não afinal tão estranho o comportamento inicial deles, daí o egoísmo ser natural,. Esta lei foi abolida há pouco tempo…

 

Com o passar do tempo, todavia, os valores foram-se aculturando, com grande esforço, no sentido de haver uma aceitação, inicialmente muito lentamente. Hoje, ao fim de meses, posso dizer que há enormes diferenças e a aculturação progressiva desses Valores, muitos deles transversais a tudo o que envolve sociabilidade e transcendência Individual e de Equipa, tem-nos levado a desenvolverem-se em todas as dimensões humanas, com grande reflexo naquilo que é o seu desenvolvimento como  jogadores e naquilo que é o nosso jogo.

 

 

Entrando concretamente na sua questão “como é, realmente, a aplicação de todas as vertentes tácticas a nível da construção de jogo nos atletas chineses?”, essa operacionalização mais ligada à ideia de jogo que tem vindo a ser desenvolvida foi concomitante ao processo que referi anteriormente de aculturação de Valores, porque no fundo esses dois processos- aculturação de ideia e de valores – acabam por ser um uno.

 

Ao início, eu próprio tive um tempo de adaptação, no sentido de me adaptar ao processo de comunicação e tradução (que envolve a intermediação do adjunto, que é simultaneamente tradutor, que envolve o conhecimento de palavras e frases essenciais à intervenção do treinador, etc…), à complexidade mais adequada para o nível de cada equipa (pois a complexidade é diferente dos sub 7 para os sub-9 por exemplo, apesar de a representatividade do todo que é a ideia estar sempre presente).

 

Ao longo do tempo, todo este ajustamento vai sendo refinado até que entramos num momento em que toda a dinâmica do processo encontra um maior equilíbrio.

Contudo, todos os princípios de intervenção gerais acabam por ser os mesmos que em qualquer outra realidade. Acredito que a base de construção de uma ideia de jogo deve assentar, como referi na exposição, na oportunidade de uma equipa e dos seus jogadores vivenciarem contextos enriquecedores, ajustados ao seu nível, mas que permitam exponenciar o seu desenvolvimento ao máximo, ou seja, serem espremidos.  Para isso, há uma condição prévia que é sabermos bem que há determinados padrões de jogo, que são potenciadores desses contextos, e que são padrões esteticamente eficazes (a ideia de que o jogar bem conduz a melhores desempenhos), sendo a sua expressividade máxima aquela evidenciada pelas equipas de top, com elevado nível de eficiência. Acredito que aplicação desses padrões é transversal a qualquer realidade, não sendo esta excepção, agora, interpretada não com tanta eficiência.

O que posso dizer, é que tenho vindo cada vez mais a reforçar a ideia, porque o observo diariamente, que a plasticidade aquisitiva que à nascença um miúdo chinês tem não é tão diferente da de um miúdo português. Essencialmente são os contextos que as moldam. O que observo da prática é que ao fim de algum tempo de “stress”, chamemos-lhe assim, eles começam a ajustar-se e a aculturarem-se à ideia. Para isso, nós treinadores temos de ser convictos nas nossas crenças e ideias, temos de ser persistentes, mesmo que a generalidade não acredite. A prática tem-me mostrado precisamente que algumas crenças de que os miúdos chineses não eram capazes de interpretar estes padrões, como eram aqueles miúdos do Sporting, é mentira e posso documentar isso com os vídeos que estou a gravar e que, provavelmente apresentarei em posteriores edições do Congresso de Futebol.

Terminaria, sublinhando que, apesar das dificuldades iniciais de formação de Valores, e das dificuldades circunstanciais da comunicação e da tradução, no geral e no essencial o desenvolvimento de uma ideia de jogo é feita pela oportunidade de jogar, jogar e jogar, o contexto do nosso jogo, muitas vezes.

A estratégia de aprendizagem que procuro aplicar é assente numa descoberta guiada, procurando muito o questionamento e a apresentação de problemas para que eles porem “a pinha” a funcionar, descobrirem soluções autonomamente, criarem associações cada vez mais crescentes e consistentes de memória. Para isso é necessário criar uma dinâmica juntamente com o adjunto de tradução, o que envolve uma grande capacidade para filtrar e selecionar a informação a passar, os timings e as formas com que essas informações são partilhadas. Nos momentos de pausa, em que lhes apelo mais ao consciente, é fundamental a intervenção do adjunto. Depois, eu também tenho de intervir porque há um tempo que envolve o processamento da informação e às vezes tem de ser muito rápido. Apesar de não dominar o mandarim, procurei aprender palavras-chave, e frases-chave para poder comunicar. O facto de não articular frases muito complexas durante os momentos de acção e verificar mesmo assim a aquisição que eles têm tido, leva-me a reforçar uma ideia particular que tenho de que não é com uma grande frequência de feedbacks nem com muitas palavras que eles vão adquirir o jogo. É com assertividade no feedback. O silêncio deliberado durante períodos relativamente prolongados, acima de 5 segundos (passa-se muita coisa em 5 segundos), por vezes até minutos, é uma estratégia importantíssima para que eles sejam confrontados com problemas os resolvam sem a ajuda do treinador. Outro exemplo é, dar-lhes autonomia para fazerem as equipas e organizarem os jogos, como se fosse num contexto de futebol de rua. Desenvolve-lhes a competitividade, o jogar para ganhar, encontram formas de superação.

 

No que se refere a classificar o jogador chinês, sublinho mais uma vez que, na minha opinião, são os contextos que moldam o jogador, pelo que me é difícil catalogar. Há uma individualidade, cada miúdo tem uma “força natural” para jogar futebol. Acredito que, à partida, um miúdo que começa a jogar tem tanto potencial como os outros. Actualmente na China, o futebol de formação não está organizado, projectado e sistematizado. Com o investimento que existe, é provável que venha a estar mais. Depende também da abertura com que estejam a quem realmente sabe do assunto, a quem reflecte com profundidade sobre o futebol e a quem está no terreno, e assim as gerações futuras beneficiarem disso. É natural.

No que se refere às gerações que actualmente estão ou no curto prazo/médio prazo estarão no futebol profissional, certamente beneficiarão com a presença de treinadores experientes e com a vinda de jogadores de top. Aquilo que observo em bruto, é que essas gerações já têm potencial, há bons jogadores. Mas a cultura de jogo é algo que se constrói ao longo de anos, pelo que a construção de uma selecção chinesa mais competitiva (sem naturalizações) e a exportação sistemática de chineses diferenciados para outros mercados como o Europeu é algo que não se faz de um dia para o outro.

 

Mas pelo que percebo, há uma enorme aposta e vontade em fazer desenvolver o futebol e, como tal, trata-se de um mercado com enormes potencialidades imediatas e futuras.

 

Espero ter ajudado. Se quiser disponibilizar o meu testemunho no planetadesportivo, esteja à vontade.

 

Convido-o desde já a vistar o meu site www.cmvision.pt

 

Ao dispor.

 

Abraço

Carlos Miguel

UEFA Licensed Coach

www.cmvision.pt

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